'A arte é para todos', diz ator surdo na plateia de peça interrompida por Marco Nanini após reclamação sobre intérprete de Libras
Ator é vaiado após interromper peça e pedir retirada de intérpretes de Libras O ator surdo Lucas Bourscheid, 32 anos, estava na plateia da sessão do espetáculo ...
Ator é vaiado após interromper peça e pedir retirada de intérpretes de Libras
O ator surdo Lucas Bourscheid, 32 anos, estava na plateia da sessão do espetáculo "Fim de Partida", realizada no último domingo (18), em Porto Alegre, e relatou momentos de frustração e constrangimento após a retirada dos intérpretes de Libras do palco.
A apresentação no Teatro Simões Lopes Neto foi interrompida pois, segundo relato de espectadores, o ator Marco Nanini alegou que a iluminação sobre os intérpretes de Libras estaria atrapalhando sua performance e pediu que a produção os retirasse do palco.
"A arte é para todos e a comunidade surda tem o direito de participar, compreender e vivenciar o espetáculo em sua própria língua, a Libras", comenta o espectador.
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De acordo com Bourscheid, o espetáculo contava com recursos de acessibilidade, incluindo Libras e audiodescrição. Ele lembra que estava ansioso para acompanhar a apresentação e que, cerca de cinco minutos depois do início, percebeu uma movimentação envolvendo Marco Nanini e as intérpretes.
O espectador diz que, após uma tentativa da produção de solucionar a situação, as intérpretes foram retiradas da apresentação.
"Na hora eu não percebi, mas vi os intérpretes de Libras começarem a se perguntar: 'O que eu faço?'. [...] Depois, a intérprete voltou ao palco e avisou à comunidade surda que [a interpretação] tinha sido cancelada. A gente começou a ficar assustado, frustrado, chocado", relata.
Parte do público se retirou do teatro após o ocorrido
Izabel Cristina/Arquivo pessoal
O espetáculo continuou sem acessibilidade, o que fez com que pessoas se retirassem — por necessitarem do intérprete ou em protesto pelo ocorrido. As cortinas se fecharam e o público vaiou Nanini.
Do lado de fora, Bourscheid teria conversado com a produção da Pequena Central e defendido que o espetáculo fosse então cancelado para todo o público.
"Estou reclamando porque tenho direito à acessibilidade no teatro. Não é favor, é direito", afirma.
Em nota, a produtora Pequena Central de Produções Artísticas justifica que "foi identificado um problema de compatibilidade entre o posicionamento da intérprete de Libras e a iluminação do espetáculo" e admite que "falhou ao não verificar e garantir previamente as condições técnicas necessárias à realização da sessão com interpretação em Libras".
A Fundação Theatro São Pedro, responsável pelo espaço cultural, lamenta o ocorrido e afirma que "apesar das possibilidades avaliadas e dos esforços empreendidos, não foi possível encontrar uma solução que contemplasse todas as necessidades envolvidas naquele momento, e a peça voltou a ser apresentada sem a interpretação de Libras". Leia os pronunciamentos abaixo na íntegra.
O g1 tenta contato com o ator Marco Nanini, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem.
Marco Nanini em "Fim de Partida", de Samuel Beckett
Fernando Young/Divulgação
Pedidos de desculpas
Após o fim da apresentação, conforme Lucas, atores como Ary França e Guilherme Weber o procuraram.
"Deram um abraço forte e pediram desculpas para as pessoas surdas e também para as intérpretes de Libras", conta.
Bourscheid afirma ainda que um integrante da produção voltou a procurá-lo e pediu desculpas. Segundo ele, também foi mencionada uma falha técnica de iluminação como parte da explicação para o episódio.
'Destruir a vontade de assistir'
Para o espectador, situações como essa têm um impacto que vai além de uma apresentação específica. Ele ressalta que a retirada de um recurso de acessibilidade durante um espetáculo pode provocar um sentimento de exclusão.
“Se pedir para cancelar o intérprete de Libras na frente da plateia, é muita tristeza. Pode destruir a vontade de assistir, pode causar impacto emocional”, afirma.
Ator profissional e ativista da comunidade surda em Porto Alegre, Lucas diz ter experiência com acessibilidade também em seus próprios trabalhos. Ele cita o projeto teatral no qual atua com um ator ouvinte e conta com interpretação em português por voz para garantir acessibilidade ao público ouvinte.
Para ele, essa experiência reforça a ideia de que acessibilidade precisa atender diferentes públicos e fazer parte do planejamento de uma produção desde o começo.
Bourscheid defende que produções culturais levem a acessibilidade em consideração desde a concepção dos espetáculos e que artistas e equipes estejam preparados para receber diferentes públicos.
"A acessibilidade é um direito que envolve participação, respeito e inclusão", afirma.
Apresentação na Capital
Essa foi a segunda apresentação do espetáculo na capital gaúcha. A primeira sessão ocorreu na noite de sábado (17), sem registro de intercorrências.
O texto clássico de Samuel Beckett é encenado por Marco Nanini, Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França.
O que diz a produtora
"NOTA DE ESCLARECIMENTO
A Pequena Central de Produções Artísticas, produtora do espetáculo Fim de Partida, vem a público esclarecer o ocorrido na sessão deste domingo, 18 de outubro, no Teatro Simões Lopes Neto, em Porto Alegre, anunciada com audiodescrição e interpretação em Libras.
Durante a apresentação, foi identificado um problema de compatibilidade entre o posicionamento da intérprete de Libras e a iluminação do espetáculo. A sessão foi brevemente interrompida para que a produção e a equipe da Fundação Theatro São Pedro buscassem uma solução. Não foi possível resolver o problema naquele momento, e a apresentação foi retomada sem interpretação em Libras, comprometendo o acesso do público surdo ao espetáculo.
Reconhecemos que a produção falhou ao não verificar e garantir previamente as condições técnicas necessárias à realização da sessão com interpretação em Libras neste teatro. Assumimos inteira responsabilidade por essa falha e por suas consequências.
Pedimos sinceras desculpas, especialmente ao público surdo prejudicado, às intérpretes e às demais pessoas envolvidas.
A acessibilidade integra nosso compromisso com o público e precisa ser assegurada também no planejamento e na execução de cada apresentação."
O que diz a Fundação Theatro São Pedro
"A Fundação Theatro São Pedro informa que, durante a apresentação do espetáculo Fim de Partida, realizada neste domingo (18), no Teatro Simões Lopes Neto, ocorreu uma intercorrência técnica envolvendo a iluminação destinada ao serviço de interpretação em Libras.
Diante da situação, a equipe da Fundação atuou diretamente na mediação entre os envolvidos, buscando alternativas técnicas que permitissem a continuidade do espetáculo e a manutenção das condições adequadas de acessibilidade. Apesar das possibilidades avaliadas e dos esforços empreendidos, não foi possível encontrar uma solução que contemplasse todas as necessidades envolvidas naquele momento, e a peça voltou a ser apresentada sem a interpretação de Libras.
A Fundação lamenta muito o ocorrido, especialmente os prejuízos causados à comunidade surda presente. O compromisso com acessibilidade é um dos pilares da instituição, que entende que cultura se faz com o acesso e o respeito a todos os públicos.
Fundação Theatro São Pedro"
Marco Nanini foi vaiado durante espetáculo de teatro em Porto Alegre (RS)
Izabel Cristina/Arquivo pessoal
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